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Diálogos do Brincar - O Tempo da Criança

Diálogos do Brincar  O Tempo da Criança  com Luiza Lameirão -BR — Boa noite a todos presentes, e também a quem tá nos assistindo online....

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Diálogos do Brincar  O Tempo da Criança  com Luiza Lameirão

-BR — Boa noite a todos presentes, e também a quem tá nos assistindo online. Hoje é a quarta videoconferência do projeto Território do Brincar, uma co-realização com o Instituto Alana, e hoje a gente tem aqui conosco a Luiza Lameirão, que vai conversar sobre “O Tempo da Criança”. Essa conversa vai ser feita com ela, vocês podem participar enviando perguntas, e a gente espera que seja uma boa reflexão, possa contribuir com os diálogos, com as conversas que vocês têm feito nos espaços sobre a criança, o brincar e a educação. Então eu queria apresentar a Luiza. A Luiza é pedagoga, professora formada pela USP, trabalha com pedagogia Waldorf há bastante tempo, com formação de professores e educadores sociais.

Ela coordena o Centro de Formação de Professores Waldorf e é co-fundadora do Instituto Olinto Marques e da Aliança Pela Infância. Ela escreveu alguns livros, entre eles Criança Brincando, Quem a Educa?, Bole Boneca, ambos para pais e educadores. E também o livro Cheiro de Terra Molhada, que é pra crianças. Que é muito bonito, inspirado na sua infância, né, Lu? Então eu queria já passar a palavra para ela, a gente vai ter aí uns 20 minutos de exposição da Luiza, e aí depois a gente já passa para as perguntas. E continua essa conversa. Obrigada por ter vindo, em nome do Alana, do Território. A Luiza também é conselheira do Território do Brincar, ela faz parte do grupo inspirador, e aqui está conosco. — Muito boa noite, pra mim é uma alegria estar aqui, assim como tem sido uma alegria acompanhar o trabalho da Renata, desde muitos anos, antes até do Território do Brincar.

E o Instituto Alana pra mim é daqueles institutos que lidam com toda a coragem em prol da infância. Então não tem solo mais fértil pra se falar da criança. O tema que me deram certamente foi bem escolhido, porque toda vez que eu falo, eu falo da criança e falo do tempo. Então vamos ver de que maneira eu vou conseguir equacionar isso tudo em 20 minutos. Mas depois vocês têm a chance de perguntar. Muito bem. Então. Como nós podemos ter uma imagem do que é o tempo? Quais são as qualidades do tempo? Não aquelas que nós prosaicamente medimos em nossos relógios e calendários, mas o que é o tempo de verdade? E, refletindo muito, eu resolvi iniciar essa nossa conversa a partir do fluxo de uma vida humana. Então, a vida humana tem uma fonte, um nascimento, e um dia vai ter sua foz. E flui como se fosse um rio. Este rio tem duas margens. E uma das margens é o espaço luminoso onde todas as coisas e pessoas e seres vivos podem ser percebidos dentro dessa luz.

E a outra margem é o tempo. O tempo que flui, o tempo que flui inexoravelmente, o tempo que se nós o vivenciarmos ritmicamente nos vitaliza, e nos dá a chance de sermos criativos em nossas ações. Mas é enigmático que a nossa relação com o espaço e com o tempo, na infância, é muitíssimo diferente do que a relação que temos agora enquanto adultos. E em relação ao espaço isso é muito claro: basta que visitemos um espaço que foi vivenciado na infância e que nós guardamos na lembrança como um espaço muito amplo, muito aberto, muito grande, onde eu podia enquanto criança expandir a minha ação, e chego lá como adulta e vejo “nossa, como é pequeno”.

“Como esse quartinho é apertadinho”. E a varanda, que eu imaginava enorme, é tão pequenininha. Então é bem concreto, é perceptível sensorialmente que a nossa percepção como crianças é muito diferente da nossa percepção como adultos. E isso em relação ao espaço fica muito, muito claro. Mas em relação ao tempo, se nós voltarmos na nossa infância, claro que nós vamos perceber que parecia que o tempo era mais lento. Parecia que dava pra fazer tudo que eu queria. Mas a gente não tem como medir, não tem como ter a certeza de qual é a diferença.

E isso fica pro adulto como um grande enigma. Um grande enigma porque escapa da nossa percepção sensorial direta. E esse enigma do tempo faz com que a travessia entre essas duas margens do rio só possa ser percebida na travessia. Como diz o nosso grande João Guimarães Rosa. Que tudo que a gente passa de um lado pro outro não tá nem no começo, nem no fim, mas se revela na travessia. E essa oportunidade de se vincular com essa relação entre tempo e espaço é o que nos torna, como educadores — e aqui eu não tô chamando educadores aqueles que trabalham diretamente numa instituição educacional, mas todos os seres humanos adultos são educadores de crianças — que nós tenhamos essa tarefa tão difícil e ao mesmo tempo tão gratificante, que é educar.

E o ato de educar vive entre essas duas margens, que são as margens da vida humana. Como é que nós intermediamos espaço e tempo pode ser uma grande tarefa pro educador. Hoje eu tenho a tarefa em relação ao tempo, então eu vou unilateralizar pra esse lado. Se nós pensamos de verdade no tempo da criança, e já vimos que ela tem essa habilidade de ampliar o espaço e também o tempo, o que seria necessário para compreender? Como que eu posso compreender o tempo da criança? Em primeiríssimo lugar, ele ainda não se objetivou entre passado e futuro. A criança muitas vezes se refere “amanhã eu fui ao parque e balancei e soltei pião, e soltei pipa”, mas não foi amanhã, porque já aconteceu.

Então essa relação com o começo, meio e fim, ou passado, presente e futuro, ainda não se estabeleceu na vida da criança. E se nós percebermos como a criança se coloca ativa no mundo, e que pra ela pode não ter fim aquela atividade, nós podemos nos perguntar: por que será que tanto envolvimento, que parece não ter fim? E esse “parece não ter fim” é o adulto, que olha e pensa. E pra criança às vezes um instante de um rodopio ou de um salto pode parecer que não tem fim, também. Então a gente pode se perguntar que essa nossa horizontalidade do tempo ainda não existe na percepção infantil.

E se não existe a horizontalidade, então em que tempo ela está? Ela está naquilo que eu posso chamar de tempo vertical, ou de tempo que está suspenso desse que nós somos capazes de medir e de cronometrar, e de se alinhar em relação a isso. Então, se é mesmo assim, que a criança suspende o tempo quando brinca, isso já disse o grande Agostinho da Silva, o filósofo português que viveu alguns anos no Brasil, por que é que nós adultos insistimos em fazer uma agenda cheia de programas pras crianças? Por que é que nós adultos insistimos em dizer “anda logo, que nós vamos perder a hora”? Ela não sabe o que é a hora, ainda. Então ela não tá perdendo nada.

Se eu faço esse argumento, a criança não vai me entender. Isso faz parte do nosso cotidiano. Outro fenômeno bem recorrente é: quanto mais cedo a criança aprender as habilidades que nós adultos prezamos como necessárias, melhor. Essa criança está ganhando tempo na vida. Isso tudo só pra dizer que nós queremos imprimir a nossa vivência de tempo no tempo da criança que é de outra natureza. E certamente o que nos chama muita atenção, além do acúmulo e da pressão que esse acúmulo traz pra criança, é a necessidade que nós temos de acelerar o seu desenvolvimento. Então o tempo pra todo o desenvolvimento, raramente as crianças encontram. Elas dão um jeito, porque elas são muito mais criativas do que nós. Então elas acham brechas, elas acham instantes entre uma atividade e outra escolar, elas acham instantes na festa que não é dentro do padrão daqueles que estão animando a festa pra fazer por conta própria.

Porque o que elas mais anseiam é se ativar por conta própria. Então é muito decisivo que nós nos perguntemos: por que nós queremos acelerar? O que é mais acelerado dentro da nossa constituição humana? Muitos anos eu refleti sobre isso. E no fundo, toda mecanização que nós passamos desde a grande revolução industrial, faz com que nós não tenhamos mais a paciência de fazer com a nossa força motriz. Porque a nossa força motriz demanda um esforço e um esforço demorado. Esse é um lado. O outro lado, muito mais gritante do que esse, é a rapidez como nós recebemos informações de todos os confins do mundo. Então é quase instantâneo, acontece um acidente natural, como foi agora no Equador, ou os tsunamis que já passaram por outros países, e nós ficamos sabendo imediatamente daquilo que aconteceu. E essa informação imediata nos imprime um impacto e nós ficamos nos perguntando: o que eu posso fazer com isso? Então eu já deleguei pra máquina algo, eu já deleguei pra quem quer que seja que participou diretamente de uma catástrofe dessa, e o que sobra pra nós? Sobra um cotidiano bem ordenado, bem milimetrado, cronometradinho que eu tenho uma agenda bem cheia, e quando eu olho no fim do dia pra minha agenda, muitas vezes eu percebo que eu não cumpri aquilo que eu me propus… Isso vai dando sempre um débito, mais outro débito e isso nos causa uma sensação muito perniciosa que é: eu me sinto perdedor, em relação ao tempo.

E como o adulto se sente perdedor, ele não quer que a criança se sinta. É de coração que ele não quer. Então ele quer que a criança seja mais ágil do que ele. Só que o mais ágil do que ele vai numa direção que não é a da criança. Porque a criança, ela não quer delegar pra máquina, ela quer se ativar. E a criança não precisa de informação que venha dos confins do mundo, porque ela já mantém uma abertura pro mundo enorme. E quando nós tentamos acelerar pra que ela aprenda a fazer uso da máquina, a receber essas informações, o que nós trazemos pra ela é uma vivência interior de que não dou conta. Disso eu não darei conta. E porque eu não dou conta, eu desenvolvo um medo pro mundo. Então existe uma constante na vida infantil atual, que é essa… Esse medo diante do novo, diante do futuro, diante de algumas aventuras, crianças que não conseguem pisar um solo que não seja um tapete bem macio e fofo.

Crianças que se incomodam de ter que subir alguns degraus pra olhar alguma coisa de cima, enfim. Isso eu tô falando de medos concretos, que é mais fácil de localizar. Mas muito pior do que os medos concretos é um medo básico que vive no interior da criança. E esse medo básico pode se traduzir, diante do impulso grandioso que a criança traz de ativar-se, de se colocar em ação, entre uma apatia e uma ação violenta. Então eu diria que a ação violenta e a apatia são verso e reverso da mesma medalha, dessa impossibilidade de seguir no fluxo de querer se ativar, de querer se ativar mantendo a confiança e a abertura para o mundo. Desse ponto de vista, o que o Território do Brincar nos chama a atenção é que as crianças, quanto menos dirigidas pra atividade própria, mais elas são capazes de criativamente se ocuparem. E isso nos leva a inúmeras perguntas, que eu garanto que vocês também as têm, em relação… Por que é que o adulto quer indicar atividades? Agora é a hora desta atividade, agora é a hora da outra atividade, agora é a hora da outra atividade.

Mas isso eu espero que também venham de outra maneira com as perguntas de vocês. Muito obrigada. — Pergunta do Pará, da Joice Santos, de Juriti. Que é ampla e eu acho que dá pra você fazer uma continuidade nesse panorama, essa reflexão sobre o tempo. “Será que existe hora para brincar?” — Que ótimo, não é? Uma pergunta dessa é completamente dentro do contexto do que eu acabei de dizer. A criança não compreende hora, ela não compreende calendário, ela não compreende agenda. Então falar de “hora pra brincar” é um fenômeno completamente alheio ao que vive na criança.

Por outro lado, nós sabemos que a cronobiologia, o estudar os tempos dentro da organização humana, percebeu que o nosso pensamento, que é o mais rápido de todos, a gente pode num minuto ou às vezes em alguns segundos, compreender alguma coisa, o nosso sentimento precisa se assentar um pouco mais por alguns minutos, e nós precisamos de uma hora para nos ativar de verdade. Então, se eu quero beneficiar uma resposta, eu diria que pelo menos quando a criança começa a brincar, que ela tenha uma hora para isso. Mas uma hora é a nossa concepção que consegue medir. Pra ela não. Pra ela sempre vai ser um tempo que tem, porque é esse tempo suspenso, o… Assim, o lugar da eternidade. Que pra nós adultos, nós vivenciamos no contrário esse lugar da eternidade.

Talvez no nascimento de uma criança isso aconteça. É como se ali o tempo se expande e nós nos percebemos num instante que tem essa grandeza de eternidade. Mas no nosso cotidiano, a eternidade tem um reverso muito forte. Que é a urgência. É como se fosse a sombra da eternidade, a urgência. E quando nós sentimos a urgência de alguma coisa, nós estamos entrando ou na margem de uma crise. E as crises são pra que nós consigamos, no nosso dia-a-dia, abrir no nosso tempo prosaico e cinzento instantes de eternidade. — Estão chegando algumas perguntas que olham também pra questão do tempo no contexto familiar.

Então, se por um lado você tem pais que quase não destinam tempo nenhum aos filhos, você também encontra pais que não saem de cima. O que esse cenário revela sobre a relação dos adultos de hoje com o tempo presente? É uma assistente social de São Paulo que enviou a pergunta. — Ótima pergunta. Então. Os pais. Os pais não fizeram nenhuma formação para serem educadores. E de repente eles têm crianças e eles precisam educá-las. Essas crianças chegam com características que muitas vezes nos torna assim um pouco inquietos, como adultos. A gente se pergunta: será que criança sempre foi assim? Enquanto pais, tô me colocando no lugar de mãe agora. E é bem importante que… nós vivemos num tempo que nós não queremos seguir tradições antigas. Eu não quero fazer como fez minha mãe, meu pai, meus avós, meus tios.

Eu quero fazer da minha maneira. Mas qual é a minha maneira? E aí tem duas tendências básicas que essa pessoa localizou tão bem. Eu posso ter a tendência de superproteger, ou eu passo à tendência de dizer: faça aí porque eu tenho muito que fazer. E nenhuma das duas oferece a chance de estar verdadeiramente presente com as crianças. Porque a superproteção sempre é um anseio do adulto que se coloca na criança e que muitas vezes se transforma em impedimento pra que a criança se ative. Pra que a criança se torne autônoma na vida. Esse é o lado da superproteção. Por favor, está se tratando de superproteção. Porque proteção é papel do adulto em relação à criança. Agora, o pai que está sempre alheio, o que eu observo é que na maioria das vezes, esses que não têm tempo pra criança, eles substituem a falta de tempo por um presentinho cada vez.

Então o pai viaja muito, e quando chega em casa, a primeira coisa que a criança pergunta: o que você trouxe pra mim? E “o que você trouxe pra mim” fica substituindo a presença depois de uma ausência. Então, aí a gente percebe que a barganha se torna nociva porque a criança não estabeleceu vínculo com aquele adulto a ponto de se alegrar simplesmente porque ele está diante dela. Então, tanto um lado quanto o outro, ele fica impedindo que aquilo que é a base da relação humana, e que começa na relação primordial entre mãe e filho, não se estabeleceu. E esse vínculo na base da verdadeira troca, não exige que alguém chegue em casa e se sente no chão pra brincar.

Não é essa a exigência. A exigência é: como é que eu estou em casa, e estou à disposição de uma troca de olhares, de um grande abraço. Agora com esses dias instituídos, esse dia do abraço rendeu várias falas. Mas sempre os poetas são mais pródigos. E o Mário Quintana diz do abraço uma coisa muito linda. Ele diz que o abraço é muito importante, porque as mãos vão dizer aquilo que muitas vezes as palavras não conseguem dizer.

Então assim, essa possibilidade do verdadeiro encontro com um carinho, com a criança, ou mesmo com o jovem, e a possibilidade de uma troca numa conversa, ou cantando juntos, ou contando o que aconteceu no dia, ou contando mesmo uma história, isso fica impossibilitado tanto num caso quanto no outro, E, se de um lado a criança desenvolve uma dependência da superproteção, ela também pode reagir em algum momento do desenvolvimento, de forma violenta contra essa dependência. E aí vem toda aquela mágoa: eu fiz tudo por você, eu não fiz mais nada a não ser por você.

Isso reverte de uma maneira bem negativa sobre a vida desse indivíduo, e o outro talvez ganhou autoconfiança mas tem um vazio aonde ele podia ter aninhado afeto, carinho, e dedicação dos adultos. — Então, você tava trazendo na sua fala alguns aspectos importantes, que o adulto… Os pais, o adulto cuidador, nesse tempo presente, pode cuidar e olhar. E até uma outra pessoa tinha perguntado se, por exemplo, brincar junto com as crianças é uma alternativa? Acho que você falou um pouquinho isso, acho que você pode falar um pouco mais, sobre onde é esse lugar do adulto brincar junto, mas aí também já aproveitando isso, quem fez foi o Leonardo Reis, de São Paulo, mas uma outra pergunta também.

Da Ludmila Franco, de Uberlândia, que ela fala: “como podemos estabelecer uma rotina diária (sono, refeição, escola) sem prejudicar o brincar livre?” Então um pouco falar dessa dimensão, do adulto, seja no brincar, seja nessa rotina… Como que ele pode atuar a favor do tempo da criança? — Não é a favor do meu tempo, porque eu tenho que falar muito pra responder isso. Mas vamos tentando. Então, existe um lado no caminho do ser humano enquanto criança, que a criança precisa ter autonomia. E essa autonomia não pode ser retirada ou pelo menos um pouco impedida pelo nosso medo, pela nossa pressa, pela nossa superproteção. E isso é o que a criança faz e conquista enquanto ela brinca. Então a minha interferência ao brincar se reduz a de que maneira eu crio o ambiente pra criança se ativar. Se, em alguns momentos, o adulto quer se ativar junto com a criança, nenhum problema. Mas não pode haver aquela dependência de que a criança não é autônoma pra decidir do que brinca, que consiga brincar sozinha, que consiga ter os seus momentos individuais, ou que os irmãos se entendam, às vezes de uma maneira mais forte do que os pais gostam.

Então assim, eles disputam coisas, mas a rotina da criança, ela vem favorecida por aquele outro lado do tempo que eu nem me referi, que é o tempo que se torna concreto. E que eu posso dizer, hoje de manhã o tempo não tava bom, amanheceu chuvoso, nublado, muito frio… O que eu tô fazendo? Eu tô chamando fenômenos meteorológicos de tempo, não é? E são fenômenos vinculados ao decurso do sol durante o dia que fazem uma rotina saudável. Então. Basicamente, nós nos alimentamos quando o sol nasce, ao meio-dia, e quando o sol se põe. Pra criança, nós interrompemos esses períodos tão longos e pomos um lanche no meio. Mas de qualquer jeito, as refeições vêm acompanhando esse decurso do sol. E muitas vezes a gente ouve de nutricionistas: de manhã cedo coma muito bem. E ao anoitecer coma menos. Vocês já devem ter ouvido isso. Até tem uma fala mais: coma como um rei, depois coma… E no fim do dia, coma como um mendigo. Então, essa é uma vertente que já organizaria a rotina do ponto de vista daquilo que é responsabilidade do adulto.

Só que a rotina não precisa ser estritamente baseada no relógio. Porque se eu disser que todo dia o sol nasce às 6 da manhã eu estou mentindo pra vocês. Porque cada dia nasce em um outro momento, e de maneira diferente. Então, precisa de uma refeição ao amanhecer? Precisa. Mas por que as crianças não conseguem entrar no horário de verão? Porque pra elas tanto faz se o relógio foi adiantado ou não.

Ela vai acordar naquele tempo que amanhece. Então: esse é um lado que o adulto precisa lidar, e é responsabilidade dele. Outro lado que o adulto precisa lidar é o sono da criança. Então: o sono também depende da escuridão, do silêncio da noite, e o despertar o galo canta. O galo canta no amanhecer. E agora existe galo cantando nos celulares e nos despertadores, mas eu sou do tempo que o galo cantava mesmo, no quintal. E na verdade o galo canta, pode ser uma imagem, gente. O galo canta, ele tá anunciando algo. E o raiar de um novo dia anuncia algo. Anuncia algo e anuncia a minha disposição para aquele dia. E com isso, a criança, ao despertar, ela acorda plena de disposição. E ela cresce nessa disposição até o sol a pino.

E depois vai decrescendo até o anoitecer. Só que tem uma baixa nesse crescimento, que é logo depois da refeição do meio do dia. E aí existe uma indicação literal que é necessário a siesta pra criança. Ou a sesta, como a gente diz. E esse sono no meio do dia, o que ele faz no tempo do dia? Ele faz uma pausa natural. Então o dia começa a ganhar uma qualidade rítmica, porque alterna entre luz e escuridão, alterna entre momentos que eu me alimento e depois eu não me alimento, alterna em momentos em que eu me ativo e depois descanso.

Então, ao invés de ser uma rotina, que é rígida e monótona, eu posso organizar o dia da criança pra que ela se torne saudável de uma maneira rítmica. E isso eu repito, porque é super-importante, é responsabilidade do adulto educador. E o que eu observo é que a nossa cultura inverteu isso. Inverteu da seguinte maneira: a criança pode escolher o que ela come, que horas ela come, o que ela veste, como ela veste, que horas dorme, mas ela não pode se ativar pra aprender a saltar, correr, andar de patinete, de bicicleta, sem ter alguém do lado e com toda aquela parafernália que agora é necessária.

Pra pôr joelheiras e outras coisas. Então essa inversão me faz crer que a nossa cultura vem impedindo o tempo da criança, ou o tempo da infância verdadeira. — Olhando agora um pouquinho pro contexto escolar. Que é outro ambiente que a criança fica bastante tempo, cada vez mais. “Como respeitar o tempo da criança na escola, com uma grade curricular batendo à porta? Como deixar a criança se auto-ativar, numa sala com outras quase trinta crianças? Às vezes meus alunos apontam para outras atividades e eu me retiro e deixo eles interagirem. Mas me preocupo em lá na frente ser cobrada por ter deixado conteúdos para trás.” Enfim, essa é a pergunta da Vanessa Faresena, que é professora do terceiro ano em São Leopoldo, Rio Grande do Sul.

— Então. Terceiro ano escolar, um momento bem crucial no desenvolvimento da criança também. Mas tudo que a criança fez antes, neste momento já vive dentro dela, e ela precisa ter um tempo de fazer por conta própria. Acho que ela tem razão. O medo de não cumprir conteúdos é um medo de todo educador que está dentro de uma instituição escolar. E aí a gente poderia se perguntar: de que maneira esse conteúdo foi pensado? Ele foi pensado pra responder ao que as crianças precisam nesse momento da vida? Fica mais fácil, porque aí o conteúdo já vem em direção àquilo que a criança precisa. Mas se o conteúdo for alheio ao que a criança precisa, aí mais ainda ela vai forçar ter momentos de brincar por conta própria.

De qualquer maneira, uma criança de terceiro ano escolar precisaria mais do que 15 ou 20 minutos pra se ativar brincando nos intervalos. Os intervalos são curtos, são muito povoados porque numa classe 30 ou 30 e tantas crianças, é muita criança, os pátios não oferecem grandes desafios e nem grandes relações com os elementos, de ter terra, areia, madeira, em geral eles são bem cimentados. E pra mim a grande tristeza, nas escolas públicas tem um espaço enorme que, em geral é mal aproveitado. Então tem aí de novo uma dicotomia. As escolas particulares, muitas delas não têm um espaço tão aberto como as escolas públicas, mas aí o aproveitamento depende de quem utiliza aquele espaço. De qualquer maneira, a gente equacionar o tempo da criança dentro de uma instituição é uma tarefa e tanto.

E eu fico muito feliz que a Sandra vá abordar isso no próximo diálogo, porque assim ela vai poder ampliar essa minha resposta meio curtinha. — Ainda mais uma sobre essa questão do brincar, do espontâneo. Na educação formal, nas escolas, que têm essa temporalidade muito marcada e muito próxima à noção de trabalho e de produção. Então como que fica esse brincar livre, espontâneo? É uma pergunta do Rodrigo Barros Capobianco, de São José dos Campos, de São Paulo. — Tá certo. — E até complementando… essa questão do trabalho, quando o Steiner fala que brincar é a atividade mais séria da criança, põe também esse ingrediente, da diferença de que trabalho ele tá falando ali. — Então. A Ana Claudia, nossa querida Cacau, citou o Rudolf Steiner, e pra mim ele é o meu grande inspirador. Mas essa citação do Steiner tem a sua raiz no princípio schilleriano de compreensão do impulso lúdico que se transforma em impulso estético, e que leva a depois uma maneira de viver que a gente pode chamar de arte de viver.

E aí é bem interessante essa dicotomia entre brincar e trabalhar. Então: “ai, criança só fica nessa brincadeira sem fim”. O adulto muitas vezes se refere, se refere porque não compreende com que seriedade a criança está envolvida nessa atividade. E com que seriedade ela está envolvida pra conquistar aquilo que é o mais decisivo, que é aquilo que humaniza o ser humano, que é a sua capacidade de ser autônomo. Então, pra que a criança conquiste autonomia, o brincar precisa ser livre.

Primeiro ponto pacífico. Ou seja: eu não posso interferir, dizendo “hoje a atividade é circo. Amanhã a atividade vai ser casinha. Depois de amanhã a atividade vai ser comidinha”. Porque aí eu estou impedindo essa ativação própria. Que não vai levar à autonomia. Por outro lado, se a criança tem a chance disso, ela vai se envolver tanto, que ela não precisa de nenhuma recompensa pra brincar. Eu nunca ouvi uma pessoa dizendo “brinca aí mais um pouquinho que eu te dou um chocolate”. Mas eu já ouvi muitas pessoas barganhando com os seus filhos ou com os seus alunos, faz aí a lição que você vai ganhar estrelinhas, vai ganhar um presentinho da professora, ou dos pais, ou de quem quer que seja.

Então, se a gente leva isso ao extremo, é a maneira como a maioria da humanidade trabalha. Eu trabalho barganhando o meu pão de cada dia. Ou o meu salário. Nós poderíamos fazer da educação real força de transformação social, se pela educação nós transformássemos essa atividade intrínseca da criança que é o brincar, pelo processo artístico, que já leva a ter um produto no final, mas um produto que envolve a expressão da criança, pra que ela opte por um trabalho onde ela possa se expressar e se envolver.

E claro que ela vai ter que receber pra poder sobreviver, mas essa não vai ser a tônica maior do trabalho. Isso daria muito mais, né, Cacau, mas… — Você tinha comentado que todos nós adultos, de certa forma, somos educadores. E aí chegou uma pergunta que eu acho que tem um… uma relação com isso, que é da… espera que eu perdi aqui… Da Patrícia Franzine, de São Paulo. Que fala assim: “Em sua opinião, qual é a influência que uso de eletrônicos entre adultos tem sobre o brincar da criança? O que ela está imitando? O que devemos dar… que tipo de modelo, de qualidade de imitação podemos dar pra criança?” Que lugar é esse da imitação e de alimento também? — Então.

Aí estamos de novo diante do que a nossa cultura proporciona como um grande desafio pra criança que aprende porque imita. Então; o que uma criança imita, de verdade? Ela imita aquilo com o que ela se identifica. Então o exemplo clássico dentro da pedagogia Waldorf, criada por Rudolf Steiner, é um exemplo dele mesmo, que diz: a criança convive com várias pessoas, mas uma só pessoa manca. E a criança começa a mancar. E o médico identifica que ela não tem nenhum problema, pra mancar. Mas ela manca. O que significa isso? Significa que a criança, não é que ela imita qualquer coisa, ou qualquer um. Ela imita aquilo com a qual ela se identifica. E ela imita por algum tempo e depois vai imitar outra coisa com a qual ela se identifica. Isso é assim com a imitação real, eu chamaria autêntica. Porém, existe uma… avalanche de coisas que chegam pra vida perceptiva da criança, que eu já me referi que é completamente aberta, que a criança incorpora e demora pra digerir. E a digestão muitas vezes não se faz.

Então quando ela pega um super-herói ou qualquer outro personagem que ela começa a reproduzir, imitando, ela fica com isso como uma imitação que se repete, se repete, se repete, quase fixa. Cabe pouca possibilidade de modular pra alguma coisa outra que ela se identifique. E durante muito tempo, eu ouvi de educadores dizendo: eu faço o que eu posso, eu faço da melhor maneira, mas as crianças não imitam aquilo que eu faço e elas imitam o que elas vêem nos meios eletrônicos. Depois de muita reflexão, eu cheguei a uma conclusão. Alguns autores corroboram isso que eu vou falar, mas a maioria talvez ache estranho. Que quando a criança imita aquilo que ela recebe dessa forma invasiva, ela está tentando digerir aquilo que tá indigesto. Então precisa repetir muito. É como se a gente ficasse com aquele sabor que volta toda hora porque aquilo ficou indigesto. Ou a gente pode dizer que era a pedra da sopa.

Ou a semente que engoliu sem querer. Então… Aí vem a pergunta: eu interfiro, eu impeço, eu acho horrível? Eu digo “eu tô mostrando uma coisa bonita, isso é horroroso”, é uma interferência com o juízo do adulto, que pra criança não entra pela explicação. Então a criança precisa digerir aquilo que imprimiu pelos órgãos… até os órgãos constitucionais mesmo. Então ela precisa expelir de alguma maneira. Como é que eu fortaleço pra que isso não imprima tanto? Precisaria ser a pergunta. E fortalecer é poder conviver com a criança, fazendo gestos e linguagens que expressem o outro lado da vida, que eu compreendo como vida humana. A criança se vincula ao outro pelos gestos, especialmente os faciais e de mãos, e pela fala. Pelo tom de voz, isso tudo. Então, o educador — e nesse caso todo adulto é educador — teria que ter gestos que a criança possa imitar e linguagem que possa alimentá-la internamente.

E aí não existe nada melhor do que pequenas canções, brincadeiras cantadas, contos, parlendas, a gente tem uma cultura pródiga nisso, e se numa… ambiente existe alguém fazendo algo e que seu gesto é muito significativo, a criança vai se ligar a esse alguém. Então, eu já entrei em várias escolas que as educadoras ficam desconsoladas porque as crianças estão todas em volta do jardineiro. Claro, gente! Em volta do jardineiro é o melhor. Porque esse ser humano está lidando com aquilo que é o cultivo do que cresce. O cultivo do que cresce é exatamente o que a criança tá fazendo dela mesma: crescer. Então ela se identifica com o jardineiro. E o jardineiro ela vai imitar muito bem.

Agora, se o educador não tem nada que ele faça com essa inteireza, como o jardineiro faz, ela não vai ter muito o que imitar. Até a sua fala, sua voz, precisa ter essa inteireza. — Oi. Alô? A gente recebeu várias outras perguntas, só que a gente tá chegando no nosso final de conversa. Então queria na verdade passar pra que você faça as considerações finais, uma fala trazendo outros pontos que você achou que ficou faltando, e… Enfim, fica com você esse desfecho. — Tá certo. Então. Acho que nós chegamos a tocar essa relação do tempo como algo constante que flui, talvez eu não deixei tão claro que esse tempo que vem do passado pro futuro é o tempo que nós medimos, e nós medimos exatamente como a Grécia descobriu há mais de 2000 anos atrás.

E chamou do tempo Cronos, que é esse que eu sou capaz de cronometrar, de medir, de calcular. Mas já os gregos sabiam da existência de um tempo Kairos, ou Kairós. Esse tempo, ele vem numa corrente oposta. Que vem do futuro pro presente. Quando eles se encontram, forma o nicho que eu posso chamar de presente. E aí a gente verticaliza ou suspende o tempo. Isso a criança sabe fazer. Isso a criança sabe fazer, se ela não é impedida pela nossa pressa, pela nossa aceleração, pela nossa inversão de tarefas, que foi aquilo que eu me referi, que tem tarefas que são do adulto, que o adulto delega pra criança, e o que é da criança o adulto quer assumir por ela. E lidar com isso requer que o adulto possa ter alguns momentos onde ele pressente a eternidade, no seu dia-a-dia. E isso o adulto precisa de dar pra si mesmo.

Ninguém pode ensinar isso pro outro, ele precisa praticar, exatamente como a criança pratica o brincar. Se ele fizer esse encontro consigo mesma nesse momento que só ele pode dizer que quer fazer, certamente ele lidará de outra forma com o tempo da criança. Muitíssimo obrigada. — Eu vou ter que… — Eu acho que você podia, só pra amarrar, dar alguns exemplos de como ele pode eternizar, pra quem… só pra dar um desfecho. Dar uma inspiração pra quem tá também nos ouvindo. Como que ele eterniza? Algumas… eu sei que você é boa nessa parte de exercícios. — Tá vendo? Quem já me ouviu antes, sabe o que quer ouvir, né. Tudo bem, Cacau, vamo lá.

Então: eu já me referi, na minha fala inicial, que um dos momentos que nós temos essa vivência do eterno no tempo, é quando nasce uma criança de forma natural, mas também quando morre um ser humano de forma natural. Então nós estamos diante de dois momentos que o início e o fim da vida nos oferecem, porque o nosso rio que corre, ele corre, tem um começo e tem um fim, e a gente se acerca da eternidade nesse começo e nesse fim. E você vai viver isso daqui a pouco, Cacau. E outros momentos são aqueles em que a gente pode se encantar com uma coisa tão simples, com uma minúcia tão pequenininha, e aquilo nos preenche tanto que a gente pensa que ficou muito tempo diante do fenômeno.

Então o que é tão mínimo que pode me encantar? Ultimamente eu me encantei com uma frase do Guimarães Rosa que é “uma noite lembrada em mim entre silêncio e orvalho”, eu venho cultivando isso em mim, e o orvalho tem se revelado como algo que realmente traz isso. E quanto mais eu observo o orvalho, mais eu percebo que naquela mínima gota, ele reflete todo o redor. Ou seja, uma gota é capaz de revelar o mundo inteiro. Então. Do ponto de vista do tempo, essa minúcia faz isso que a gota de orvalho faz no espaço, pela sua qualidade esférica. Então, qualquer fenômeno que nos encante vai ter essa qualidade. A relação com o outro numa conversa bem especial, onde os dois são francos, um realmente ouve o outro, suspende o tempo. Eu não vi o tempo passar, a gente fala, depois de uma boa conversa. Vocês concordam? E por fim, gente, um momento consigo mesma. Cada pessoa que for capaz de ter um momento consigo mesmo, de realmente buscar lá no mais íntimo de si o que é que tá vivendo, o que que é que está se aninhando no seu interior, suspenderá o tempo.

Muitas culturas chamam isso de meditação. E eu gosto de dizer que meditação é aquilo que o ser humano dita pra si mesmo. Então eu não preciso seguir alguma linha meditativa. Eu posso gerar a minha mesma. Se eu meditar pra mim mesma. E claro que existe os momentos que se eu não faço por conta própria, a vida exige. Que são os momentos de crise. Esses eu vou deixar de fora agora, pra não tingir o final. — Pra todo mundo ter bons sonhos. Bom, então eu queria agradecer a presença das pessoas que vieram nos assistir, também de quem ficou conosco online, participando desse diálogo, das perguntas enviadas. Pedir pra que vocês preencham a avaliação que vai aparecer logo que a gente encerrar essa videoconferência, a avaliação é muito importante porque é a partir dela que a gente pode aprimorar essa ação, também saber de temas que interessem a vocês. E eu queria também já convidá-los pra próxima videoconferência, nossa quinta da série Diálogos do Brincar, que vai ser no dia 23 de junho, quinta-feira, também às 19 horas, com o tema “Uma Experiência do Brincar na Escola”, com a Sandra Eckschmitdt.

Então boa noite a todos e obrigada mais uma vez. — Muito obrigada..

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Educar em casa: Diálogos do Brincar - O Tempo da Criança
Diálogos do Brincar - O Tempo da Criança
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